
Mar Aberto: confluências de vida e arte entre mulheres das águas
“Não há, no entanto, um jeito único de ser pescadora. Trata-se de pescas. Trata-se de pescadoras”
(GERBER, p.34)
Elas trabalham embarcadas, limpando peixe, tecendo redes ou catando mariscos. Elas conhecem o mar, o tempo, o mangue, o rio. Elas não estão sozinhas. Elas estão com seus maridos, filhos, irmãos, tios. Elas tecem suas redes de afeto e jogam nas águas, afeto maior. Existe aqui um universo social inteiro que envolve reconhecimento profissional frente aos órgãos institucionais, frente à família, aos companheiros e a sociedade como um todo. O reconhecimento da profissão de pescadeira, segundo a pesquisadora Rose Mary Gerber, se faz essencial na vida dessas mulheres, onde os dispositivos de controle do Estado (sendo eles o INSS e o Ministério da Pesca) não reconhecem tais espaços por elas ocupados, devido ao fato de serem, originalmente, espaços masculinos. Para tais órgão, ao contrário do homem, uma mulher pescadora para se aposentar precisa apresentar provas de que exerce profissionalmente a função de pescadora. Tais provas envolvem ser filha ou esposa de pescador.
“[é verdade que a senhora fica doente se não vai pescar?]
Chego a ficar doente quando não vou. Pego a cama. É saúde o mar né?
[por quê?].
Em casa tem muitas coisas. Diversas coisas. Trabalho sim, mas também os problemas. A
gente faz os deveres de casa também, mas só que no mar é mais divertido. A gente vê a
natureza. A gente se alegra até com a natureza. Mas tem que levar repelente por causa
do mosquito. Óleo não adianta. Ele não registra. Tem que ser repelente. Eu mesmo tenho
que ir todo dia. Não adianta dizer que não. Eu tenho que ir.”
Entrevista com a pescadeira Paulina, fonte: Mulheres do Mar, Rose Mary Gerber
O projeto aqui descrito é uma das etapas para a construção da ação cênica intitulada MAR ABERTO. Tem como ponto de partida o livro “Mulheres do Mar”, da antropóloga Rose Mary Gerber, fruto de sua investigação de doutorado sobre a vida das chamadas pescadeiras: mulheres que trabalham com a pesca, seja embarcadas, limpando peixe, tecendo redes ou catando mariscos. Paralela a essa investigação principal, uma outra pesquisa imagética e estética compõe o projeto. Ela é referente às figuras sagradas das Yabás, orixás das religiões de matriz afro relacionadas ao feminino e às águas. Foram realizadas conversas com mulheres que trabalhavam com a pesca, culminando em um vídeo com fragmentos desses encontros, entrecortado com depoimentos das próprias artistas envolvidas a partir desses encontros.


