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urbgrafias

Urbgrafias são cartografias. A cartografia trata de uma abordagem processual que tanto é transversal quanto transdisciplinar, ou seja, observa os fenômenos em sua multiplicidade, onde a partir da observação implicada, uma observação-corpo de processos singulares, pode analisa também contextos sociais e políticos. 

Por sua vez, urbgrafar como verbo em ação, pode ser entendido como o ato de experimentar a cidade através da arte. Portanto, envolver o corpo aparece como elemento fundamental no processo de experimentação. É pensar na cidade que o corpo faz cotidianamente.

Para Suely Rolnik, o corpo ativado pela experiência artística proposta por Lygia Clark não é nem um corpo orgânico, “nem o envólucro de uma suposta interioridade imaginária”, apenas. É ainda uma mistura de todos eles, “é o corpo do emaranhado-fluxos/baba”. A obra passa ser a experiência do espectador imerso em uma resstruturação do que Suely Rolnik chama de corpo vibrátil. É onde se cria o “não sei o quê”, que não é sabido pois não era conhecido anteriormente, é algo novo, em estado de elaboração. Uma sensação. Segundo ela, quando essa sensação se produz, não se situa no mapa dos sentidos, pois ela não compõe ainda esse mapa.

E aqui é importante frisar a potencia de criação, de estar implicado não apenas como observador, mas como atuante. Sobre vivenciar as ações artísticas cartografadas, abrindo-se para a possibilidade de experimentação do espaço através da arte, podendo dessa forma sentir outras nuances do espaço ainda não sabidas, das dinâmicas sociais e políticas que permeiam aquele espaço, assim como a partir dos encontros, desestabilizar e recriar formas de existir.   É também sobre pensar no desenho do espaço que o corpo faz. Nas espacialidades das ações cênicas, em suas cenografias, e aqui entendo a palavra cenografia a partir de seu contexto performativo. Seja o desenho operado pelo contorno imediato desse corpo, seja pela composição que ele opera com a cidade a partir de sua ação, o espaço performativo da cena tece grafias da mesma, e dentro dessas grafias, cenários que não estão atrelados ao conceito de fake ou falso, mas que revelam a potência do próprio espaço material e ao mesmo tempo subjetivo.

Com base nos encontros narrados no início dessa tese e, principalmente, deixando-me atravessar pela obra da artista Lygia Clark, propus três jogos/disparadores que versam sobre assuntos que cruzam essa encruzilhada reflexiva e movimentam o corpo em direção a cidade. O ponto de maior importância dos jogos são seus temas: caminhar, caber e contar. Caminhar como prática inicial, como primeiro exercício de contato entre corpo e espaço. Caber como forma de fazer existir, entender como esse corpo cria espacialidades através do seu movimento e da sua interação com os diversos elementos físicos do espaço. Contar é sobre falar: que mapas são possíveis de contar a partir das experiências vividas nos jogos anteriores? Como construir um mapa de dentro, registrando os rastros que o corpo deixa no espaço ao se movimentar?

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